Quão pequena pode ser uma córnea operável em olho com catarata?
Bruna Ventura · Grande Campeã Catarata — BRASCRS 2026
Por Bruna Ventura • 29 de outubro de 2026
A cirurgia de catarata pediátrica representa um cenário que exige avaliação cuidadosa e planejamento. Quando associada a alterações anatômicas importantes, a abordagem pode se tornar ainda mais desafiadora. Nesse contexto, o caso apresentado parte de uma questão central: quão pequena pode ser uma córnea operável em um olho com catarata?
Relato do caso
O caso envolve um menino de oito anos, com diagnóstico de displasia oculodentodigital, condição de herança autossômica dominante, com menos de 300 casos estimados no mundo (Figura 1). Na avaliação oftalmológica inicial, o paciente apresentava acuidade visual de percepção luminosa (PL) em ambos os olhos (AO). Ao exame, foram evidenciadas, em AO, catarata congênita, microcórnea extrema, dispersão importante de pigmentos em câmara anterior e sinéquias posteriores não contínuas em 360º (Figura 2). O diâmetro horizontal da córnea era de 6,25 mm em AO, o diâmetro anteroposterior era de 20,45 mm em olho direito (OD) e 20,16 mm em olho esquerdo (OE), e a ceratometria média era de 38,75 dioptrias (D) e 38,25 D, respectivamente. O potencial visual evocado (PVE) foi de 20/80 em OD e pior que 20/400 em OE. Após pesar com a genitora os riscos versus possíveis benefícios cirúrgicos, optou-se por seguir com a cirurgia de catarata no OD.
Figura 1 - Criança com displasia oculodentodigital. Imagem publicada com autorização do JCRO
Figura 2 - Foto do NGenuity imediatamente antes de iniciar a cirurgia, evidenciando os detalhes anatômicos do segmento anterior. Imagem publicada com autorização do JCRO
A cirurgia foi muito interessante. Após fazer a peritomia e a incisão límbica posterior, corei o que parecia ser a cápsula anterior com azul de tripan e usei o cautério de radiofrequência para fazer uma abertura circular nela, sem que houvesse tentativa de desfazer as sinéquias posteriores. Usei a caneta de I/A para aspirar a catarata e logo foram evidenciados uma outra membrana semelhante à cápsula anterior e mais conteúdo cristaliniano posteriormente a ela. Ficou evidente nesse momento que a primeira membrana que corei com azul era uma membrana pupilar e que ao usar o cautério de radiofrequência para abri-la, houve microperfurações na cápsula anterior suficientes para parte do conteúdo cristalino ser aspirado antes da abertura da cápsula anterior real.
Usei novamente o cautério de radiofrequência para fazer uma abertura circular na cápsula anterior e prossegui com a facoaspiração. O complexo saco capsular-íris se comportou fluidicamente como o de um olho alto míope axial. Ajustei os parâmetros de fluídica para diminuir a retropulsão do complexo saco capsular-íris.
Devido à microcórnea extrema, a irrigação da I/A ficava posicionada na parte interna da incisão e começou a ocasionar um descolamento de Descemet no local. Optei por realizar a viscoexpressão da catarata e a aspiração a seco com seringa de vidro e BSS.

O olho foi deixado afácico. O paciente tinha uma opacidade de cápsula posterior de 2+, que optei por abordar usando o Yag Laser em um segundo momento. Ao final da cirurgia, fiz aberturas radiais no remanescente da membrana pupilar, injetei triancinolona intracameral e dexametasona subconjuntival. Suturei todas as incisões com Vicryl 10-0 (Figura 3).
Figura 3 - Foto logo após o término da cirurgia, usando um cotonete para se ter uma noção visual da microcórnea extrema. Imagem publicada com autorização do JCRO
No primeiro e oitavo dias de pós-operatório, o olho estava calmo, a córnea transparente e o paciente não apresentava lacrimejamento nem fotofobia. Ele percebia movimentos de mãos e a genitora relatou grande melhora na qualidade de vida e maior independência nas atividades diárias.
Um mês após a cirurgia, apresentava córnea transparente, pressão intraocular de 14 x 21 mmHg e foram prescritos os óculos com +15,00 D em OD. Com essa refração, ele chegou à visão de 20/375 na cartela LH para três metros, com a cartela sendo posicionada a um metro. Três meses após a cirurgia, com essa refração, ele alcançava a visão de 20/100 na tabela LH para três metros, com a tabela sendo posicionada a dois metros (Figura 4). O paciente e a genitora estavam muito felizes com o resultado e com a autonomia que o paciente tinha conseguido após o procedimento.
Figura 4 - Foto do terceiro mês pós-operatório evidenciando eixo visual livre e córnea transparente. Foto publicada com autorização do JCRO
Considerações finais
Em casos desafiadores de catarata pediátrica, o PVE é importante para apoiar a decisão cirúrgica. Quando esse exame sugere possível benefício cirúrgico, apesar da idade e das características anatômicas do paciente, e os genitores concordam com o procedimento após entenderem os riscos envolvidos, seguir com a cirurgia, se preparando para um cenário desafiador, tem uma grande chance de ter um impacto enorme na visão e na qualidade de vida do paciente. Manobras cirúrgicas precisas são importantes para diminuir os riscos associados à cirurgia nesses olhos.

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